sexta-feira, 6 de março de 2009

Véspera nº2

Às vésperas do inicio de meus trabalhos com o Ponto de Cultura de Lia, em Itamaracá, tenho comigo uma pergunta que me assola, dentre tantas outras:
____________________________ quem irá ao meu encontro?
Parto daqui rumo a algum horizonte ao qual estarei sempre aberta a aceitar, encarrar e respeitar.


______________ À porta quem virá bater?

______________ Em uma porta aberta se entra
______________ Uma porta fechada um antro

______________ O mundo bate do outro lado de minha porta.

___________________________________Pierre Albert-Birot,
__________________________Lês amusements naturels, p 217.

Véspera

foto: br 116

Vem chegando fevereiro e o que se sonha é um dia interio no seu lar.
Poder cantar, poder calar, poder querer e merecer o doce toque do seu mar...


Recife de ilusão, Pernambuco coração.

Recife de ilusão, Pernambuco coração.


Vens de lá eu sei, fevereiro vai chegar.
Fevereiro vai chegar...
Chora a Liberdade ao ter tua lembrança, ao se cansar de te esperar,
Sorri a Boa Viagem ao ver feliz a tua imagem ao te ver chegar.

Tua tristeza vai embora, com teu choro o meu pesar.
Tua tristeza vai embora e com teu choro o meu pesar.


Tua espera é meu lamento: a felicidade é teu lar!
A felicidade é teu lar...


Mas se já vais embora,
se já passou da hora de te encontrar,
viverás feliz, longe daqui em outro lugar.

E meu fevereiro é teu dezembro mesmo sendo em janeiro, véspera.


Às vezes aqui , mas sempre lá.

Às vezes aqui, mas sempre lá...


Mas se já vais embora,
se já passou da hora de te encontrar,
viverás feliz, longe daqui, em outro lugar.


O meu avô (homem sábio) me disse certa vez: "Todo homem precisa de uma ilusão pra viver." Eu nunca pude me esquecer disso.

O que temos acima é uma canção, Véspera é seu nome e a letra foi escrita por mim a algum tempo. Eu tinha lá os meus 16 anos e sofria com a partida de uma grande amiga que voltava ansiosa a sua terra: Recife. Ela havia passado uma temporada fora de sua terra natal por conta de uma crise financeira que abalou sua família e nesta ocasião nos conhecemos, estávamos as duas recém chegadas numa escola na cidade de Resende-RJ.

Nessa época eu ouvia Chico Science nas rádios e sua música me comovia a ponto de me causar sensações e desejos profundos de mudança, me apontando o movimento, proporcionando um impulso a mais contra minha sensação de estagnação.

Naquela época, há uns 15 anos atrás, eu vivia a inércia de uma comunidade rural abalada pelo agronegócio. Eu não estava no campo e também não estava na cidade, vivia num lugar entre um local e outro, à beira de uma BR, numa paisagem verde rasgada por uma rodovia, a mais movimentada de todo o país a BR 116, que liga Rio a São Paulo, que leva até certo ponto Rio de Janeiro a Minas Gerais (Estado onde nasci), mas a mim, me deixava exatamente onde eu estava, não me ligava e nem me levava a lugar algum.

Eu acredito que tenha sido aí que nasceu o meu encanto por esse lugar que minha amiga Ivana amava tanto. Um lugar capaz de produzir tanta poética deve ser um lugar de magia, ou será apenas o lugar que chamamos de nosso? Bem, para quem não tinha, naquele momento, lugar algum como referência, para quem, dia e noite via a sua frente, tantos carros passarem rapidamente de um ponto ao outro indo sabe-se lá para onde, neste caso, Recife poderia ser, de fato, um recife de ilusões ...

Mas não é.

terça-feira, 3 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Caboclo de Lança

O Reino da Rabeca Encantada

Estive fora uns dias, vou lhes contar como foi.

Lá estava eu andando pelas ruas do Recife antigo entretida com os belos enfeites do carnaval quando, ao entrar na rua da Moeda, vi passar correndo por mim um Caboclo de Lança. Era uma criatura fascinate, de longe se ouvia o tintilar de seu surão e tanta lantejoula ofuscava meus olhos! Fiquei completamente hipnotizada tamanho era o borão de cores. O segui. O Caboclo ia com sua lança quebrando as esquinas e atravessando becos até que entrou em um ônibus que foi parar em Tabajara, uma terra Olindense, aparentemente, não muito distante.

O Caboclo desceu do ônibus e eu continuei a segui-lo até que chegamos em um Reino chamado Casa da Rabeca. Nesse Reino todo ano acontece um encontro de Maracatus e nesse encontro pode-se ver todos os Caboclos de lança do mundo! É assim que começa o carnaval. Vem chegando noite e dia Maracatus de Baque Solto, Maracatus de Baque Virado, Reis, Rainhas, Porta bandeiras, Vassalos, Damas do passo, Baianas e os Caboclos de Pena (que não usam lança e sim machado) também chamados Tuxau ou Arreimá. Todos vêem de outras tantas terras também, aparentemente, não muito distantes... Quando os Maracatus de todo o mundo se encontravam o som vindo do Reino parece o som que vem do trovão!

De repente o Caboclo que estava parado de frente para a arena onde se fazia a chegada de todos os Maracatus, saiu correndo de novo, agora em direção a um lugar que mais tarde eu fui saber que era o castelo da Rainha. Lá, no castelo da Rainha, eram costuradas todas as roupas do Maracatu. Cada Caboclo bordava a sua gola e cada Baiana bordava o seu vestido, cada Dama costurava suas pedras... O Caboclo que eu perceguia estava com sua gola meio solta e precisava de uns ajustes. A melhor costureira do mundo, vivia alí, naquela casa. O Caboclo entrou numa fila imensa que sumia por detrás das montanhas... Nunca vi tanto ajuste pra fazer!!! Nesse meio tempo pude observar com que facilidade e rapidez todas aquelas pessoas, homens e mulheres, bordavam suas roupas. Eram enormes bordados em harmonia coloridos.

Assim que o Caboclo teve sua gola ajustada saiu novamente na correria de sempre e eu, já estava me virando para segui-lo quando fui pega de surpresa no portão. Lá estava ela, a própria, a Rainha do Reino da Casa da Rabeca!!! Ela era tão bonita e tão jovem que mal pude acreditar!

A Rainha me olhou meio de eslaio e depois me examinou de cima em baixo. Aí, com firmeza olhou nos meus olhos e me perguntou:
_Quer brincar comigo o carnaval?

Eu logo fiz com a cabeça que sim (jamais poderia decepcioná-la!). Então ela voltou-se para a melhor costureira do mundo e disse:
_Minha mãe, temos mais uma Baiana, tu tens uma roupa para ela?

Pronto.
Foi assim que durante o carnaval desse ano eu me tornei uma Baiana do Maracatu Piaba de Ouro, brincadeira preferida da Rainha Laíse.

A Corte todos os dias acordava cedo, tomava seu café na sede do Reino e seguia, divivida em três ônibus e um caminhão, para outras terras. Íamos apresentar aos povos de todos os Reinos nossa majestade! O grande cortejo ocupava as ruas e parava os blocos do carnaval, todos ficavam deslumbrados, a gente toda ia para as suas janelas para aplaudir o cortejo que passava, as pessoas saíam das calçadas dando passagem, as crianças corriam, as moças sorriam, as senhoras choravam.

Estive fora uns dias. Eu estive nas terras de uma jovem Rainha, lá descobri o seu reinado de carnaval e experimentei uma brincadeira diferente.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ciranda há! beira mar...

Praia de jaguaribe, Itamaracá. Sábado, 07 de fevereiro de 2009

Neste dia a ciranda começou mais cedo, havia uma filmagem no centro cultural, lá estava uma equipe com câmera, grua, microfone e tudo mais. O filme era sobre os Patrimônios Vivos de Pernambuco e Lia no final do ano passado virou um deles.

Um patrimônio vivo recebe do governo do Estado uma mesada mensal, em torno de R$ 700,00. Isto porque, os Patrimônios Vivos (apesar de desenvolverem intensamente suas atividades como artistas, artesãos ou mestres), não possuem uma renda suficiente para o seu próprio sustento.

Até então, Lia foi merendeira da escola estadual em que trabalhou a vida inteira. Com o salário de merendeira levou sua vida de rainha da ciranda, no entanto, a quantia que ganha como cantora não chega a ser considerável, embora viaje o ano inteiro com sua banda, incluve fazendo shows fora do país. Pois bem, lá estavam filmando Lia, lá estavam construindo para ela um "Universo de Patrimônio Vivo" que não era exatamente o universo dela...

Lia pra quem não sabe não pertence a nenhum Terreiro de Candomblé e a nenhuma Nação de Matriz Africana, seja ela do Maracatu ou do Afoxé, não é essa a sua crença. Ela respeita, canta e cita Yemanjá sempre que se lembra dela, mas do Terreiro ela não é e nem precisa ser.

Sua beleza e imponência africana é de arrepiar e encantar qualquer um e isso basta. Acontrece com o público, com seus músicos, com quem quer que se atente, nem que seja por alguns instantes, a sua voz, a sua forte presença. Mas lá estava Lia, a pedido da equipe do filme, batendo a cabeça pro Tambor de um de seus músicos, o Baba Claudinho do Afoxé Alafin Oyé, na presença de uma Mãe de Santo e de uma baiana que assistiam sentadas a roda de ciranda.

Gentilmente eles cederam ao pedido, gentilmente colaboraram para a construção de um "Universo de Patrimônio Vivo" que mais adiante irá se contradizer com suas próprias histórias de vida.

Há de ser com delicadeza que cheguemos nos espaços que não conhecemos, e então, nossas ficções, nossas idéias dele, terão de ficar cada uma em seu devido lugar para dar espaço a inevitável realidade que sem dúvida será mais bela e infinitamente mais interessante ( e menos obvia) que a própria idéia dela. Lia é o que é antes de virar Patrimômio e não é á tôa, basta abrir os olhos e ver! Gentileza sempre haverá!

Axé!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Rodas, Espetáculo e Oficinas


Em Março eu e Seu Luíz Paixão iniciaremos nossa Residência Artística no Ponto de Cultura de Lia de Itamaracá. Daremos Oficinas todos os sábados e, a quem possa interessar, as inscrições estão abertas e as atividades serão gratuitas!

Eu ofereço nas oficinas um trabalho inspirado numa técnica contemporânea chamada Viewpoints e traço um diálogo com a dinâmica das rodas de Cirandas. Esse trabalho pretende culminar na criação de um espetáculo ao final da Residência e quem está na oficina participa!

O Seu Luíz oferece em sua oficina o contato com a brincadeira do Cavalo Marinho. Os participantes poderão aprender sobre o Cavalo Marinho além de dançar e tocar.

Tanto a minha Oficina quanto a de Seu Luíz serão oferecidas no Centro Cultural Estrela de Lia, uma linda arena à beira mar na praia de jaguaribe, na Ilha de Itamaracá. Nos sábados, após as Oficinas, tem também a Ciranda de Lia à apartir das 21h. Não percam!

Informações:
81- 97 39 28 15 fale comigo
81- 91 18 64 96 fale com Seu Luíz